A “cultura do desperdício”: todo excesso esconde uma falta.
Sempre me assombrou o fato de que os excessos revelam as faltas. Essa meditação, ainda que não contemporanea, mas, marcada pela psicanalise freudiana no século XIX me deixa com um embaraço na mente faz refletir sobre quem somos, nossas extravagâncias e também as ausências nesse mundo. Diante dessas minunciosas críticas observei um incômodo que permanece em minha alma: o desperdício de alimentos. O excesso de alimentos deixados nos pratos. E é preciso ser profunda ao dizer sobre, porque, de fato, dói e deixas marcas - no presente - em mim.
Em abril de 2025 conheci um Resort no Sul da Bahia. Marcado por suas praias maravilhosas e alta gastronomia o buffet livre também chamava a atenção de quem ali se hospedava, inclusive, a minha que mesmo com uma infecção de garganta e sem interesse naquelas porções gigantes me admirava com tamanha variedade. Esses olhares na comida diz sobre uma cultura mundial que “comemos com os olhos” mas, por vezes, não conseguimos comer com a boca. O óbvio precisa ser dito, sejamos sinceros. As mesas fartas também revelavam pratos fartos, mas, cheios de desperdícios. Observei famílias que serviam pratos que se transformavam em formas ovais, mas, logo que se assentavam a mesa e viam a quantidade de comida se levantavam e deixavam ali, para ninguém. Descarte. Havia um desperdício imenso. Ninguém aproveitava, sequer os pássaros que sobrevoavam o resort. Doces, bolos, peixes, carnes, porções enormes deixadas para trás. Gula? Ganância? Uma família colocou seus excessos em um prato e não se assentou. Deixaram sob a mesa e partiram. Vi essa cena no mínimo cinco a sete vezes em quatro dias que passei por ali. O fato de ter nascido com um orelhão de aparelhagem e olhos de coruja chamou atenção. Como um mineiro que diz, "cá entre nóis" qualquer um observaria todos deixarem os pratos cheios e saírem comumente.
Existe uma enorme diferença entre o desperdício e o não gostar, ou não desejar, e é claro que isso não precisa ser evidenciado. Sabemos o quão inerente é. Há quem diz que quem tem receio de não conseguir ou ter algo que tanto almeja e por isso deseja-o em excesso.
Não existe uma questão de classes sociais envolvidas nessa crítica. Há quem tem pouco e quando diante do muito sabe viver como São Francisco de Assis no século XII, com o necessário. Há quem tem muito e deseja que o seu muito seja transferido nos exageros. É preciso, para estes, a cultura da educação. Recordo-me de Leila Ferreira ao escrever em seus livros que precisamos de pessoas educadas, gentis e que pensam no próximo. Além disso, que o mundo está cansado de gente sem educação e sem empatia. Pensar apenas no meu mundo porque eu fiz a reserva, eu paguei, eu sou dono, eu tenho o direito eu sou, eu tenho, eu, eu, eu e eu, nos diz de um sofrimento do mundo que vive adoecido pela sociedade do consumo e da cultura do desperdício.
Antes de observar o comportamento dos outros, gosto de analisar o meu. Se ganho algo, doo dois ou três e sempre em prol de ações em benefício dos animais - visto que é a causa que mais abraço. Longe de ser exemplo, mas, para dizer de nossos incômodos é preciso analisar se eles não fazem parte de nossas vidas. A acumulação e o exagero não libera o fluxo de receber além da não liberação da energia do amor, bençãos e da circulação de paz. É como se houvesse uma trava em só juntar e desperdiçar. Caminham juntos. São irmãos que destroem quem dá as mãos a essa parceria.
O mundo está precisado da cultura do desapego e do necessário. Recordo-me quando ainda criança que existia opções definidas: arroz branco, feijão branco ou preto. Hoje há arroz integral, meio integral, arroz com vinho, com pastas, sem sal com molhos. Com shampoo a mesma coisa. Shampoo para cabelos lisos e enrolados. Hoje para cabelos lisos oleosos, crespos pouco enrolados, loiros opacos e meio amarelados. É uma diversidade e ampliação que, por um lado é positiva mas que desencadeia o desperdício. Quer quer tudo, nada tem. O mundo quer nos oferecer tudo e nós, perdidos com tamanha variedade, no fundo, parece que nada temos. O vazio toma conta de nós, por isso, os pratos cheios. Volta-se na primeira ideia de que os excessos escondem as faltas.
É preciso a simplificar a vida e viver com o necessário, assim, ela caminhará em consonância com o bem estar, meio ambiente, boas relações e autocuidado. O desafio está lançado. Viver como os antigos diziam: “menos é mais”. Que essa premissa seja sempre atual.
Natália Aparecida Alves Mesquita
21/07/2026
Gramado-RS


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